Você Pode Mudar o Futuro

Publicado em 23 agosto 2018

2 comentários

Se existe, hoje, uma certeza largamente majoritária no espírito dos brasileiros, ela é, sem qualquer dúvida, a de que o Brasil precisa mudar. E mudar rápido. Gerações antes de nós – e mesmo a nossa própria – cresceram iludidas com a idéia de que o Brasil seria o país do futuro, ainda que, no presente de cada época, as coisas não corressem tão bem quanto todos gostariam. Esse exercício de ilusão e a fé largamente professada de que esse futuro promissor de fato ocorreria, se não para nós, pelo menos para os nossos filhos e netos, certamente contribuíram para a cristalização de um sentimento geral de apatia e conformismo que acabou sendo desastroso para o país e para os brasileiros. Passamos a acreditar – e antes de nós, muitas gerações que nos antecederam – que esse futuro glorioso aconteceria naturalmente, independentemente do nosso esforço e da nossa vontade, simplesmente porque isso já estava escrito nas estrelas. Afinal, éramos um povo honesto e trabalhador, cheio de qualidades, e o nosso vasto território abrigava riquezas incomensuráveis. Era só deixarmos que as coisas se desdobrassem naturalmente e o tempo se encarregaria de presentear-nos com o futuro glorioso de que éramos merecedores. Passamos a ser excessivamente dependentes do Estado, esperando de forma cada vez mais exagerada que essa entidade abstrata cumprisse a sua obrigação de provedor das nossas necessidades, mesmo quando isso superava os limites concretos de viabilidade material. Essa atitude, por sua vez, representou o solo fértil para que surgissem entre nós lideranças políticas e executivas de caráter cada vez mais populista, que materializavam a ilusão básica na forma de promessas impossíveis e absurdas, muitas vezes apresentadas como mentiras conscientemente enganosas, mescladas com outras costuradas na ingenuidade dos incompetentes ou dos representantes desprovidos de preparo e capacidade para gerenciar eficazmente a máquina caríssima e perdulária do Estado que todos sustentamos. Inevitavelmente, um ambiente dessa natureza favoreceria, como de fato favoreceu, a quebra geral da ética e o surgimento de uma corrupção de grande porte gestada no conluio de empresários inescrupulosos com a classe política e agentes públicos. E o futuro promissor que todos esperavam continuou a ser indefinidamente postergado.

Aí aparece a questão que sempre me instigou: se esse cenário passou a ser abertamente criticado pela grande maioria dos brasileiros, já conscientes de que ele precisa ser modificado com urgência, por que não conseguimos mudar o Brasil? Ou mais importante ainda: por que deixamos que esse sentimento geral de desânimo, apatia e frustração desaguasse na profunda divisão e desunião dos brasileiros no que tange à identificação das origens do processo de degradação e à responsabilização dos reais culpados por tudo isso, sejam eles pessoas (geralmente políticos e líderes) ou modelos de organização da sociedade (normalmente ideologias e preferências partidárias).

Essas dúvidas exigem a consideração de outros fatores e, entre estes, eu destacaria a ausência do ingrediente principal, aquele capaz de motivar toda a sociedade: “o propósito nacional”. Com essa expressão, eu quis designar a identificação precisa de um caminho e a consequente determinação – individual e coletiva – para seguir por ele com a confiança de que essa via garantirá o êxito final na batalha. A consolidação de um sentimento dessa natureza exige e inclui o reconhecimento por todos e por cada um da necessidade de união e de uma ação cooperativa para rompermos com a absurda polarização ideológica e com a discórdia que se vêm consolidando entre nós. Visto por esse prisma, o “propósito nacional” corresponderia à própria alma da nação e ao elemento capaz de mobilizá-la para a construção de um país próspero, seguro e feliz. Estou perfeitamente consciente de que, para fazer surgir a chama desse propósito e mantê-la acesa, é necessário o concurso de lideranças políticas e executivas adequadas, honestas e eficientes. Mas elas certamente surgirão se cada um de nós já estiver com o espírito aberto para acolher e incorporar esse propósito, reconhecendo-o, sem qualquer titubeio ou hesitação, como sendo o único caminho para vencermos a batalha que se nos apresenta. Ao fazer isso, cada um de nós estará automaticamente reconhecendo também a inconveniência da desunião e da polarização ideológica que nos divide e desagrega, e que na ausência desse “propósito nacional”, o futuro pode ser sombrio, muito sombrio. Se conseguirmos abrigar em nós mesmos a chama daquilo que venho chamando de “propósito nacional”, passaremos a compartilhar algo em comum que nos faz mais semelhantes do nosso próximo e das instituições que nos representam, e descobriremos que a ação cooperativa de todos na busca de um futuro melhor ficará mais fácil de ser articulada. É por isso que usei neste texto o título provocador: você pode mudar o futuro. Pois então, trate de mudá-lo!
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2 comentários para "Você Pode Mudar o Futuro"

José
José disse: 23 setembro 2018
Rubens, no atual cenário político que nos encontramos, você acredita que dependendo do resultado das eleições o programa Minha Casa Minha Vida pode ser comprometido? Digo isso devido ao objeto de alguns candidatos de privatização da CEF, corte de subsídios do governo, etc.. qual a sua perspectiva pro futuro do programa que é tão importante pro país gerar empregos e reduzir o déficit habitacional?
Atendimento MRV Engenharia
Atendimento MRV Engenharia disse: 25 setembro 2018

Acredito na sustentabilidade do nosso negócio porque existe demanda. Em torno de 1,5 milhão de novas famílias se formam por ano no Brasil. Com isso sabemos que nos próximos 20 anos teremos que construir 30 milhões de moradias. Por isso o programa “Minha Casa Minha Vida” pode mudar de  nome, sofrer ajustes, mas qualquer que seja o governo que ganhe as eleições ele terá que ter uma política para construção civil no Brasil.

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