Viva a Diversidade!

Publicado em 25 janeiro 2018

Somos o país dos desperdícios. Mais do que isso: não sabemos tirar proveito das coisas boas que temos, principalmente quando elas nos foram dadas de presente pela natureza, pelo acaso ou pela história. Muitas vezes, não tiramos proveito delas porque simplesmente não as identificamos e nem as reconhecemos como coisas valiosas. Outras vezes, até chegamos a enxergar o seu valor ou o seu potencial, mas não conseguimos nos organizar para conviver com muitas dessas riquezas e, quase sempre, defendemos idéias atrasadas ou métodos equivocados para considerá-las.

Todas as considerações feitas no parágrafo precedente são especialmente válidas no que diz respeito à diversidade do povo brasileiro. A nossa riqueza social resulta, exatamente, da variedade entre os brasileiros no que concerne à etnia (equivocadamente chamada de raça), à religião, à cultura e a muitas outras características próprias de cada origem, atual ou remota. Tenho visto que uma parcela absurdamente grande da nossa sociedade vê com desdém essa diversidade, lamentando o fato de não sermos um povo de características mais regulares, como o são alguns que a história e o passar de muitos séculos trataram de homogeneizar. Mas, justamente essa variabilidade – tida como um atributo negativo – constitui a riqueza potencial que não estamos sabendo considerar. O pior é que, parte significativa das opiniões nacionais, com seu raciocínio distorcido e tosco, vê com desconfiança e até com intolerância a existência dessa diversidade, considerando como negativa qualquer característica que se distinga da sua própria. Precisamos mudar isso, adotando um comportamento superior e mais ajustado, para que possamos usufruir, conjuntamente, dessa enorme riqueza social que a história nos legou. Essa meta deve unir os esforços dos brasileiros, com o engajamento dos formadores de opinião, da mídia, dos meios de entretenimento e do próprio sistema escolar, sem armadilhas ideológicas (que mais atrapalham do que ajudam) e sem propósitos políticos pessoais ou específicos. Trata-se, apenas – e isso já é muito – de difundir uma visão inteligente do que poderia representar para nós, como povo, a aceitação amigável das diferenças e da riqueza que elas representam. Também não adiantaria restringir o esforço à repetição simplista de frases tradicionais e superficiais que mencionam a contribuição de algumas das nossas etnias formadoras na culinária, na música e em certas manifestações folclóricas brasileiras. É muito mais do que isso.

Para que esse texto fique mais claro, não resisto à tentação de ilustrá-lo com outro conceito semelhante, que, embora muito simplificado como base comparativa, não deixa de ajudar no raciocínio. Até bem pouco tempo atrás, a maior parte da população brasileira via a Amazônia como um enorme território de reserva para o futuro, para quando a nação tivesse recursos e meios de desmatá-lo e de eliminar as feras e os animais peçonhentos ou perigosos que existem ali. Era um raciocínio primitivo e completamente equivocado, qualquer que fosse a perspectiva de análise. Mas, apesar disso, era difundido e predominante. Levou muito tempo para que a parcela mais esclarecida da população se desse conta da riqueza que representa a biodiversidade da Amazônia. Aprendemos que essa riqueza não resulta da existência de grandes quantidades de castanheiras ou de seringueiras e, tampouco da ocorrência de muitos tucanos, cobras ou jacarés. Não é a quantidade ou a predominância de uma ou outra espécie. A riqueza que o mundo todo reconhece, valoriza e inveja resulta, pelo contrário, da grande variedade de espécies que lá existem (na Amazônia, convivem em harmonia mais de 20% de todas as espécies vivas do Planeta). É isso o que importa. Essa é a razão para tratarmos de organizar um grande esforço nacional em favor do reconhecimento da riqueza que resulta da nossa diversidade social. Para valorizarmos as diferenças e tirarmos o melhor proveito delas. E, como as espécies amazônicas, em harmonia e sem intolerância.       

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