Quem é o inimigo?

Publicado em 02 maio 2016

11 comentários

Os piores ingredientes da atual crise econômica e política são, a meu ver, o comportamento e as atitudes que nós brasileiros estamos tendo diante dela. De tudo o que já vivi, do que li e estudei e do que me relataram os meus pais, firmei a convicção de que o país jamais passou por uma situação tão grave e complicada quanto esta, que ainda não se expôs por completo e que, tampouco, atingiu o seu ponto de maior profundidade. Apesar disso tudo, nunca estivemos tão mal preparados e mal dispostos para enfrentar esse inimigo perigosíssimo.


Junto com a crise propriamente dita caímos em uma armadilha mortal, que nunca havia se manifestado antes no Brasil: deixamo-nos contaminar por uma insidiosa, inconveniente e perigosa divisão radical de natureza ideológica. O discurso que dividiu os brasileiros entre "nós" e "eles" acabou por polarizar os espíritos e por separar a nação, contrariamente à nossa tradição de povo tolerante e cordial. Nada de pior poderia ter acontecido neste momento, quando precisamos, justamente, de união, objetividade e coordenação para enfrentar a adversidade monumental que se nos apresenta e que põe em risco, pela primeira vez desde a fundação da nossa Pátria, a própria integridade futura da nação. Não podemos perseverar nesse comportamento deletério. Temos que pôr a cabeça no lugar, se não quisermos perdê-la! Porque, potencial para isso, a crise tem.


Se quisermos ter sucesso nessa importantíssima empreitada temos que, em primeiro lugar, refletir sobre o nosso próprio comportamento social e mudar as nossas atitudes impróprias e ineficientes. O Brasil está dividido entre "coxinhas" e "petralhas", dois apelidos tão ridículos quanto as pessoas que os criaram e os disseminaram. Precisamos desideologizar as posições e comportamentos baseados em conceitos atrasados e tão fora do tempo quanto os apelos da, igualmente anacrônica, "luta de classes". Isso divide e não aglutina todos os sócios que precisariam batalhar coordenadamente contra a crise, enfrentando irmamente os sacrifícios e aplicando coordenadamente os esforços. Ao invés da troca cruzada de chumbo entre dois batalhões de vítimas da mesma crise, simbolicamente materializada na absurda cusparada que vem coroando os episódios de hostilidade em locais públicos, temos que mirar no inimigo comum. E, em lugar de cusparadas, atingi-lo com petardos inteligentes e capazes de mitigar as consequências desta crise.


Falei da necessidade de reflexão porque entendo ser esse o primeiro passo para que toda a nação se vacine contra as tentativas divisionistas e contra o alinhamento automático às diferentes vertentes ideológicas que não cabem no presente momento, quando o foco deve ser o combate à crise e aos seus efeitos. Por maior que seja a ojeriza de alguns contra as bandeiras vermelhas, em vez de hostilizá-las belicamente, melhor seria convencer os seus portadores de que, no momento, todos eles deveriam estar abrigados sob o manto verde e amarelo que materializa a vontade superior da nação. Precisamos nos vacinar contra a inoculação insidiosa dos conceitos divisionistas como a abominável disseminação do termo "elite branca". Além de racista, essa legenda predispõe um grande número de brasileiros contra aqueles estratos que se convencionou chamar de "elite". Ao contrário do que a expressão parece pregar, a nação de nada lucraria caso fossem dizimadas as suas elites econômicas, científicas, empresariais e culturais. A elas cabe um papel importantíssimo na emulação do progresso, no desenvolvimento econômico e na própria correção das desigualdades sociais remanescentes.


Para concluir a breve exposição do meu pensamento nessa questão, gostaria de mencionar que a história da humanidade está cheia de exemplos em que nações unidas, organizadas e adequadamente lideradas conseguiram enfrentar vitoriosamente crises tão graves quanto a brasileira atual. Todavia, a mesma história mostra a existência de numerosos casos em que nações, países ou povos sucumbiram às suas crises ou aos seus inimigos, por se deixarem contaminar pela cizânia, pela divisão interna ou pela dispersão dos esforços em rusgas intestinas estimuladas por lideranças antagônicas. Melhor do que lançar "pautas bomba" uns contra os outros, seria que todos se dessem as mãos e lutassem na mesma trincheira contra o poderoso inimigo que aqui se instalou. A meu ver, isso é o que faria uma nação ajuizada. Tomara que esse venha a ser o nosso caso.

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11 comentários para "Quem é o inimigo?"

carmen lopes
carmen lopes disse: 02 maio 2016
Caro Rubens, acertadas as suas palavras. Também tenho receio do que possa acontecer no futuro do nosso país caso não consigamos nos entender e lutar juntos por um Btasil bom para para todos.
maria carmen
maria carmen disse: 02 maio 2016
Caro Rubens, acertadas as suas palavras. Também tenho receio do que possa acontecer no futuro do nosso país caso não consigamos nos entender e lutar juntos por um Btasil bom para para todos.
Andres Mendez
Andres Mendez disse: 02 maio 2016
Estamos certamente no meio de uma crise existencial, temos como norma achar que tudo se resolve sozinho e que atuar com principios ou sem valores resulta a mesma coisa
Nos falta identidade contribuir para a melhoria social da comunidade Muitos ainda pensam que o problema de uma empresa não nos afeta e que nossa responsabilidade se limita a olhar apenas o nosso lado
O primeiro a fazer e integração com o nosso empregador e buscar o crescimento da negocio com valores espirituais, éticos e profissionais. A crise faz parte da nossa vida e sairemos dela apenas com o crescimento de todos, iniciando pelo sucesso da empresa onde trabalhamos
Gustavo Malachias
Gustavo Malachias disse: 02 maio 2016
Grande Rubens Menin,

Belo texto... eu também percebo que o egoísmo de ambos os lados em defender seus interesses de forma imoral, suja e esonesta, vai levar o Brasil ao buraco.
Todo brasileiro fica conotado pelo mundo como desonesto e corrupto, volta do país das bananas, e os empresários e trabalhadores que honram seus ganhos com o trabalho... só lamento.
Parabéns à MRV, empresa sólida e muito bem dirigida.
Samuel Vianney
Samuel Vianney disse: 03 maio 2016
Ótimo texto, Rubens. Acho que a grande maioria da população pensa assim. Estou otimista. Abs.
Leandro Dias Viana
Leandro Dias Viana disse: 04 maio 2016
Certíssimo!

O Brasil está passando por um interminável negociação perde perde.

Cada um dos dois lados citados no texto deveriam ceder um pouco, e passar a ter discurso e atitudes mais conciliadora.

Tratando mais especificamente dos setores automobilístico e construção Civil, o crescimento da oferta foi exponencial na última década, e a demanda não teve como acompanhar o mesmo rítmo de crescimento.

Hoje se produz em 1 ano a quantidade de apartamentos que era necessário 10 anos para produzir... o aumento do tamanho dos empreendimentos concentrou a oferta em localidades específicas, sendo que este é um dos principais aspectos que a pessoa olha na hora de comprar um imóvel. Geralmente, o cliente quer o imóvel É no bairro A, B ou C e as construtoras tem 1000 um em estoque no bairro D, sendo que podia ter 250 em cada bairro...

Força e determinação para superar essa crise, o Brasil precisa mais do que nunca, neste momento, dos seus empreendedores!!!

Leandro Dias Viana
Elio Alves
Elio Alves disse: 07 maio 2016
Parabéns pelo texto , empresário , engenheiro e humanista , também concordo que temos que nos Unir em torno do Brasil , mais que isso escutar nossos irmãos sem ter a pretensão de dizer com quem está a razão , mas ver saídas para essa crise econômica , social , política e moral que nos assola , apontando caminhos , como a educação em primeiro lugar e sem dúvidas colocar quem ultrapassou os limites da lei e da legalidade na cadeia !!!
Nilton Freire Diogenes
Nilton Freire Diogenes disse: 08 maio 2016
Pensamento de quem pensa grande. Realmente é o ponto chave a luta de classes dividindo o país em nós e eles. Ficando assim empresários contra trabalhadores,ricos contra pobres, deveríamos estar unidos contra essa classe política e até mesmo a justiça que temos.
Roberto ramos.
Roberto ramos. disse: 10 maio 2016
Lucidas palavras,enfim,alguém pensando além dos interesses ideológicos.
Rubens Venancio dos Santos
Rubens Venancio dos Santos disse: 11 maio 2016
A melhor explicação que li até hoje para compreender a atual crise econômica. Parabéns!
Joaquim carlos lourenço de moura
Realista e verdadeiras suas palavras.

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