Propósito

Publicado em 04 junho 2018

1 comentários

No mês de maio passado, tive a chance de participar de um extraordinário curso (ExecutiveProgram) na Singularity University, organização acadêmica estrategicamente localizada no Vale do Silício, na Califórnia. Já há algum tempo, eu vinha acompanhando o desempenho dessa Universidade, interessado no experimento educacional da instituição fundada pelo icônico Raymond Kurzweil, Diretor de Engenharia da Google e referência mundial para assuntos ligados à Inteligência Artificial. Agora, aparecendo a oportunidade, fui beber diretamente naquela fonte de conhecimentos. Por maiores que fossem as minhas expectativas, a experiência ainda conseguiu superá-las. Não apenas pelos instigantes conceitos do avanço exponencial da tecnologia e o conseqüente alcance próximo dos instantes e eventos característicos da disrupção (mudança completa de paradigmas), como também pelo impacto que isso já vem produzindo – e que produzirá ainda mais, em acelerada progressão – na vida das pessoas e no ambiente das empresas. Além disso, tive a alegria de descobrir os fundamentos acadêmicos para muitas das práticas empresariais adotadas intuitivamente pela MRV. É essa alegria e são essas descobertas que pretendo compartilhar resumidamente, neste tópico, com os eventuais interessados.

A mudança acelerada do ambiente de negócios e das necessidades de reposicionamento empresarial estão exigindo novos métodos de gestão e novas estratégias de ajustamento à realidade dominante. Não faz muito tempo, as empresas eram vistas e qualificadas quase que exclusivamente por sua capacidade de gerar empregos, de produzir resultados ou lucros e de entregar produtos e serviços com boa aceitação por parte de seus clientes e consumidores. Esse já se tornou um objetivo completamente ultrapassado. Os clientes já não admitem mais adquirir produtos e serviços de qualquer empresa que polui o meio ambiente ou o entorno de suas instalações e empreendimentos. Esses mesmos clientes passam a rejeitar também os empreendimentos e as empresas que, de alguma forma, contribuam para a violência ou a instabilidade social, como também rejeitam aquelas cuja imagem fique associada a escândalos ou à falta de ética nas suas relações com o mercado e com as próprias agências públicas. Na realidade, o que todos esperam e exigem hoje de uma empresa ou instituição é um compromisso muito mais amplo, incluindo uma inserção responsável na própria sociedade que lhe envolve ou com quem ela se relaciona. O conceito não é tão revolucionário assim, De fato, Robert E. Freeman já havia criado, desde 1984, a palavra “stakeholders” para indicar todos os públicos, segmentos e setores interessados em, envolvidos com, ou afetados por um determinado projeto, empreendimento ou iniciativa. A designação inventada por Freeman abrangia desde os acionistas, dirigentes e colaboradores, como também os fornecedores, clientes, investidores, associações empresariais, sindicatos, repartições e órgãos governamentais, além das comunidades e públicos diretamente afetados      pelos empreendimentos e atividades. Na conceituação de Freeman, considerar toda essa variada (e quase sempre conflitante) multiplicidade de interesses, fazendo a ponderação certa e justa de cada classe de interesse, passou a ser a base de toda a difícil arte da gestão empresarial moderna. Mas se esses conceitos já existiam e eram praticados em grupos empresariais modernos e bem estruturados, onde está a revolução contida nos ensinamentos colhidos na Singularity University? – A resposta pode ser materializada na palavra “propósito”.

O “propósito” é a própria alma da empresa, o motivo de sua existência, a essência daquilo que a torna exclusiva, única e indispensável. É o conjunto de características operacionais que lhe garantem a existência sustentável e que fazem com que todos os seus públicos corram em sua defesa diante de ameaças ou perigos circunstanciais. Joseph A. Reiman, influente publicitário norte-americano, definiu “propósito” como sendo um modo único e autêntico de atuação por meio do qual uma marca fará a diferença no mundo, para melhor. Ou seja, além de atender com justa e harmoniosa ponderação os interesses de todos os seus “stakeholders”, a empresa terá que ser, acima de tudo, um instrumento de transformação, de forma a contribuir para o progresso da humanidade.

Voltei dessa experiência com a convicção fortalecida de que, nessa época de disrupção, as empresas que não tiverem um “propósito” e que não souberem fazer dele a sua própria alma não terão a menor chance de sobrevivência sustentável. Não conseguirão contar com uma equipe engajada, inclusive para os processos de governança coorporativa, como também não serão eficazes nas tarefas fundamentais de atrair e reter os melhores talentos e de motivá-los para uma carreira dedicada, confortável e feliz. Alternativamente, aquelas empresas que se constituírem a partir de um “propósito” válido e consistente, poderão se materializar como instrumento de transformação e participar sustentavelmente do progresso da civilização, nas suas respectivas áreas de atuação ou de influência. Esta é uma conceituação preciosa.

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1 comentários para "Propósito"

Rodrigo Cabral
Rodrigo Cabral disse: 10 junho 2018
Nada como uma dose de “oxigênio” cerebral com cursos como o mencionado, fiquei com inveja....rs. Ótimo artigo, parabéns!

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