Pré-Sal e Petrobras (2)

Publicado em 28 novembro 2012

2 comentários

Em tópico antecedente deste blog, examinei resumidamente as modificações no quadro legal da regulamentação da atividade de exploração do petróleo e de combustíveis dele derivados, originárias ou decorrentes da descoberta do Pré-Sal. Essas modificações, intensificadas últimos cinco anos, não se constituem nos únicos empecilhos capazes de impedir a exploração eficaz das novas reservas. Vou desenvolver, a seguir, um pouco mais esse assunto.

No mesmo período, a Petrobras passou a ser utilizada como espaço e instrumento para a ação política do governo, seja na adoção de decisões equivocadas quanto a investimentos, compras e prioridades administrativas, seja na sustentação de preços de comercialização dos combustíveis no mercado interno, inferiores aos custos de importação ou produção. Essa última decisão transformou a Petrobras e seus acionistas em cúmplices forçados de uma tentativa governamental para conter pressões inflacionárias – que não é a missão da Companhia – e que acabou por ser a principal responsável por um prejuízo de 12,8 bilhões de reais, somente neste ano.

Infelizmente, a mistura de objetivos públicos e privados na fixação dos preços de distribuição dos derivados de petróleo – que já resultou em uma inadiável necessidade de aumento, superior a 15%, segundo a atual Presidente da Companhia – não foi a única causa que determinou a perda da capacidade de investimento da Petrobras. Outras decisões equivocadas, imprudentes ou de viés político, tomadas ao longo dos últimos anos, agravaram os prejuízos da Companhia, diminuíram o seu valor patrimonial e comprometeram a capacidade de investimento requerida, não só para a ampliação das instalações convencionais, como também, e principalmente, para viabilizar a exploração do Pré-Sal segundo o modelo legal de que ficamos reféns. Com efeito, para não mencionar as desastrosas decisões relacionadas com a parceria feita com a Venezuela para a implantação da Refinaria Abreu e Lima e com a incompetente supervisão da construção do navio petroleiro João Cândido, é preciso destacar, pelo menos, a incompreensível operação de compra e tentativa subsequente de venda da Refinaria de Pasadena (USA), que já custou à Petrobras US$ 1,18 bilhão, mas que está avaliada em apenas US$ 120 milhões.

Essa última questão é particularmente importante porque a venda de ativos – no valor total de US$ 14,8 bilhões e que incluem, não só a Refinaria de Pasadena, como também, direitos de exploração adquiridos pela Petrobras no Golfo do México e instalações diversas no exterior – foi incluída no Plano de Negócios da Companhia para o período 2012-2016, como fonte fundamental de recursos para o financiamento das atividades do Pré-Sal.

A mudança recente na Direção da Petrobras está sendo acompanhada pela divulgação de outras informações ruins acerca da situação financeira e operacional da petrolífera, incompreensíveis para uma instituição que detém privilégios monopolistas. Além da perda atual da autossuficiência (produção superior ao consumo interno) que já havia sido conquistada, outras reduções nas metas futuras de produção acabam de ser anunciadas pela Petrobras. Com efeito, as previsões divulgadas há pouco mais de cinco meses, que davam como metas, 3,07 milhões de barris por dia em 2015 e de 4,91 milhões em 2020, acabam de ser reduzidas, para 2,5 milhões em 2016 e 4,2 milhões em 2020. Para agravar o quadro, o lucro da Companhia no terceiro trimestre deste ano caiu 6,3% na comparação com idêntico período de 2011.

Os reflexos dessa situação no valor das ações da Petrobras, e por consequência no patrimônio de todos os seus acionistas, eram inevitáveis. Nos últimos dois anos, os papéis da Companhia acumularam uma desvalorização de 28% e o valor patrimonial de mercado desse gigante passou a ser de apenas R$ 247 bilhões. Com essa queda, a Petrobras perdeu a tradicional posição de primeira colocada no ranking das maiores empresas em valor patrimonial, na Bolsa de Valores de São Paulo. Essa posição passou a ser ocupada pela Ambev, o gigante do ramo de bebidas, cujo valor patrimonial no mercado alcançou R$ 249 bilhões e cujas ações apresentaram uma valorização de 89% no mesmo período dos dois últimos anos.

Resumidamente, esse é o quadro que pode ser esboçado. Mas, parece o suficiente para justificar novos cuidados e atenções, seja nas ações governamentais, seja no encaminhamento político das soluções.
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2 comentários para "Pré-Sal e Petrobras (2)"

José de Castro Zambaldi
José de Castro Zambaldi disse: 28 novembro 2012
Ola Sr. Rubens Menin!

Desde de que tomei conhecimento do seu Blog,tenho lido todas as informações que o Sr. tem escrito nele.São informações valiosas e uma delas foi a respeito do povo brasileiro de não ter o hábito de não investir na Bolsa de Valores,a parti desta informação estou me planejando para começar a investir neste setor.continuarei lendo.Parabéns.

Um forte abraço, Zambaldi.
Leandro Carneiro
Leandro Carneiro disse: 28 novembro 2012
Ótima e providencial análise, incluindo dados que a maioria de nós desconhecia. Como parte considerável possuímos ações ou investimentos atrelados às ações Petrobrás, qual seria o curso mais recomendável nesse momento, em relação à estas aplicações financeiras?

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