Copiando os Vencedores

Publicado em 19 agosto 2014

5 comentários

Em março deste ano desenvolvi, neste blog, o tópico "Lições dos países mais civilizados". Naquela oportunidade pretendi mostrar o equívoco contido em uma idéia muito difundida entre nós: a de que temos que olhar sempre para o nosso próprio umbigo, buscando soluções e métodos tupiniquins para resolver os problemas brasileiros e negando a validade das comparações internacionais e da importação de atitudes e processos bem-sucedidos que tenham sido descobertos ou adotados por outras nações. Alguns meses depois, no clima de perplexidade que se seguiu à retumbante surra que nos foi aplicada pelos alemães, voltei a cutucar essa embaraçosa relação de causa e conseqüência entre as atitudes nacionais, de um lado, e a falta de resultados, de outro lado, no tópico "Lições da Maior Derrota do Futebol Brasileiro". Não sei, sinceramente, se esses dois textos tiveram algum resultado – por menor que seja – no convencimento de algum brasileiro à mudança nas idéias isolacionistas e autárquicas praticadas nestas plagas ou, até mesmo, no convite à reflexão. Mas, mesmo que o esforço expositivo tenha sido completamente inútil, não consigo livrar-me do ímpeto de voltar ao assunto, focando as coisas, desta vez, por uma ótica mais prática e, talvez por isso mesmo, mais convincente.


Tenho a convicção de que a melhor forma de aprender uma coisa ou de ser bem-sucedido em um método ou processo qualquer é copiar ou assimilar exemplos vencedores (internos ou externos, dependendo de onde eles existam) e, ao mesmo tempo, refletir sobre os nossos próprios erros ou insucessos. Atingido o patamar mínimo pretendido em cada caso, essa atitude deve continuar, em um processo que hoje tem sido usualmente denominado de "benchmarking". Para mim, isso é válido, tanto no âmbito da vida pessoal ou doméstica, como em campos mais dilatados e complexos (como a forma de organização da sociedade e de seus comportamentos, assim como da própria economia em seu sentido mais amplo).


Como país, nunca é demais olharmos para a nossa vizinhança mais próxima para colhermos alguns ensinamentos estratégicos. Talvez, começando pelo mau exemplo argentino. Há pouco menos de 70 anos, a Argentina emergiu da Segunda Guerra Mundial como um país desenvolvido e próspero, mais rico e bem estruturado que qualquer nação européia, com um nível invejável de cultura, educação e saúde, entre outros indicadores de bem-estar. No entanto, a seqüência interminável de atitudes equivocadas e de decisões erradas tomadas pelos "hermanos" acabou configurando a esdrúxula situação de ser a Argentina, hoje, talvez o único exemplo mundial de país que passou de desenvolvido a subdesenvolvido (afasto propositadamente o eufemismo tolo de tratar esse estágio final como "em desenvolvimento"). O estado atual de moratória dos vizinhos é apenas uma conseqüência mais imediata desse processo, que decorre do desequilíbrio fiscal e das contas externas argentinas, sendo que este, por sua vez, resulta simplesmente do populismo gerencial continuado. Ainda na nossa vizinhança próxima, aparece o exemplo diametralmente oposto do Chile, que tem uma economia equilibrada, um sistema previdenciário bem resolvido, uma economia de mercado que funciona, além de bons índices de educação, saúde e segurança pública. Não é difícil encontrar as atitudes e decisões adotadas pelos chilenos para alcançarem essa situação de sucesso.


Os exemplos são muitos e não haveria como resumi-los aqui. Mas, nunca é demais mencionar a situação de prosperidade atual da Inglaterra. Apenas para ficar em um detalhe de todo o conjunto: Londres ressurgiu como centro financeiro mundial, mesmo com a Europa castigada por uma grave crise econômica. As razões disso podem ser muitas, mas há que se reconhecer o papel fundamental da estabilidade institucional e financeira da Inglaterra, com a adoção de atitudes e métodos que produziram um ambiente econômico de regras claras e respeitadas, propício à prosperidade. Na Europa, a situação privilegiada da Alemanha também destoa do assim chamado Club Med (Grécia, Itália, Espanha e outras nações do Mediterrâneo), especialmente pelo desenvolvimento tecnológico e produtivo alcançado por sua portentosa indústria. Também lá é fácil reconhecer as atitudes e decisões que estão por trás desse sucesso. Basta que se pesquise a razão do aparente paradoxo: o salário do trabalhador alemão na fábrica da Volkswagen é muitas vezes superior ao salário de seu equivalente brasileiro, mas o seu custo final por unidade produzida (veículo equivalente) é surpreendentemente menor – o número de homens-hora aplicados na fabricação de cada veículo (essência da produtividade da mão de obra) é muito menor do que o da fábrica brasileira. Posso deixar de exemplificar com a situação dos EUA, cujo sistema universitário produz efeitos importantíssimos e bem conhecidos na economia daquele país. Mas, não gostaria de deixar a Coréia de fora dessa lista de exemplos vencedores. Esse, sim, há 30 anos, era um país subdesenvolvido e, hoje, tem 82% de seus jovens matriculados em ótimas universidades, tornou-se um grande exportador mundial de produtos de qualidade (automóveis inclusive) e colhe como prêmio principal o enriquecimento geral de seu povo (atualmente, a renda per capita dos coreanos é cerca de três vezes maior que a dos brasileiros). Esse é um milagre de muitas causas, mas as principais delas têm a ver, mais uma vez, com as atitudes e decisões tomadas ali ao longo dos anos.


O tema é instigante e poderia ser muito estendido e melhor detalhado. Mas, no espaço disponível deste blog, cabe somente a indagação final: vamos copiar os exemplos vencedores ou vamos continuar na atitude do avestruz que prefere enterrar a cabeça no chão?

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5 comentários para "Copiando os Vencedores"

LEONARDO A S COSTA
LEONARDO A S COSTA disse: 19 agosto 2014
Meu Caro Rubens,

já tives inúmeras conversas com um colega alemão sobre este tema. Ele simplesmente não consegue entender porque o país insiste em cometer os mesmos erros que nações desenvolvidas cometeram no passado, enquanto as respostas para os caminhos da prosperidades já estão todas postas e nós insistimos em não enxergá-las. enquanto poderíamos encurtar o caminho, pelos ensinamentos da história, preferimos nos afundar em nosso orgulho tupiniquim, na nossa hipocrisia e demagogia. forte abraço
Robson Inácio
Robson Inácio disse: 19 agosto 2014
Rubens, interessante demais o seu texto e a reflexão que nos deixa. Somos uma nação de "vaidosos", e isso infelizmente nos impede de aproveitar os bons exemplos. Este insight é uma forma otimista de ver a evolução dos Executivos brasileiros, que estão buscando menos "dor" e mais "amor" nas experiências vividas.
Sejamos importadores e também exportadores de bons exemplos.
Abraço
Maria R Arendé
Maria R Arendé disse: 19 agosto 2014
"a de que temos que olhar sempre para o nosso próprio umbigo, buscando soluções e métodos tupiniquins para resolver os problemas brasileiros e negando a validade das comparações internacionais e da importação de atitudes e processos bem-sucedidos que tenham sido descobertos ou adotados por outras nações"...qual sua contribuição na política para mudar isso?
Edson Junior
Edson Junior disse: 20 agosto 2014
Saudações a todos;
Creio que a diferença entre os vencedores e os outros, é que os primeiros se atrapalham menos e deixam seus talentos fluírem com mais naturalidade. Os grandes atletas não pensam "se" acertarão a bola, eles simplesmente acertam.
Por que algumas pessoas brilham mais que as outras ? Existem mais talentos que vencedores ? Todos podem ser bem-sucedidos se assim o quiserem, porém, somos nós quem criamos boa parte dos nossos problemas. Superar o medo de perder, a dúvida e a insegurança, a falta de concentração e o estresse pois estes são os maiores oponentes. É a partir do momento da percepção que temos de nós mesmos que conquistamos a melhora!

Obrigado pela oportunidade da resposta Dr. Rubens Menin.
Grande abraço;
Edson Junior
PAULO CESAR BASTOS
PAULO CESAR BASTOS disse: 22 agosto 2014
O limite da capacidade humana é imensurável. Inesperadamente, surge uma forma melhor, um atalho, para contornar o obstáculo e a oportunidade de fazer diferente.

Assim, admirar e compartilhar os bons exemplos são, também, estratégias fundamentais para o progresso em direção ao sucesso.

Precisamos de bons exemplos, com valores verdadeiros, para o fomento das fortes atitudes e boas ações no sentido do Brasil a deixar de ser o eterno País do Futuro para começar a ser o almejado País do Presente, democrático, livre, socialmente justo, tecnologicamente desenvolvido e com sustentabilidade.
A hora é essa. Vamos começar agora. Não podemos atrasar para não perder o trem da história. Vamos emparelhar a crise com a oportunidade. Para isso, vale aplicar os, modernos e inovadores, Cinco Caracteres da Competitividade, os 5C: capacitação, cooperação, comunicação, compromisso e confiança.

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