Agenda Brasil & Petrobras

Publicado em 22 janeiro 2016

7 comentários

Estou usando o termo "Agenda Brasil" com um significado pessoal, que não pretende corresponder ao documento produzido no ano passado por iniciativa do Presidente do Senado Federal (que utilizou exatamente esse título) e nem, tampouco, aos desdobramentos negociados ainda ao tempo do ex-ministro Joaquim Levy, com a participação de diversos membros da equipe governamental, notadamente daquele que viria a ocupar subseqüentemente a pasta da Fazenda, e que também foram identificados pela mesma expressão. Achei que, por se ajustar ao senso comum, o termo seria bom para se referir ao conjunto de medidas, ações e iniciativas que precisariam ser ativadas de forma concatenada, eficiente e imediata, caso queiramos colocar novamente a economia brasileira nos trilhos.


Para ser bem-sucedida, uma "Agenda Brasil" com essa acepção exigiria, de início, um diálogo franco e honesto entre o governo e a sociedade, especialmente no que diz respeito ao diagnóstico dos problemas, às origens das situações e à correta caracterização das soluções pretendidas. Fiz essa observação inicial porque entendo que o governo brasileiro não tem sido muito feliz na sua comunicação com a sociedade em tudo o que se relaciona com a origem e com as causas da crise econômica que estamos vivendo no momento. O discurso oficial pretende nos convencer de que todos os nossos problemas econômicos atuais resultaram de uma crise internacional cujos efeitos teriam nos alcançado de forma especialmente desfavorável. Este não é um diagnóstico exato e nem honesto. É verdade que todo o planeta vem enfrentando dificuldades desde a crise de 2007/2008 e que, no nosso caso, que somos commodities dependentes, a desvalorização de preço dos nossos itens exportáveis (minérios e alimentos) tem afetado muito desfavoravelmente as nossas receitas externas. Mas, a despeito disso, muitos países (incluindo vizinhos e outros em igual estágio de desenvolvimento) têm crescido de modo expressivo e continuado, ao contrário do que vem ocorrendo com o Brasil. Uma versão consistente desse diagnóstico precisa ser formatada e disseminada pelo mundo oficial, como base para qualquer esforço coordenado, coletivo, franco, honesto e amplo da nossa sociedade, de quem, inclusive, se demandarão novos sacrifícios e renúncias.


Admitindo todos esses pressupostos e a existência de boa vontade geral, algumas prioridades têm que ser estabelecidas. No meu modo de ver, a Petrobras é a principal delas, não apenas pelo porte da Companhia, mas pela sua importância na nossa economia. O poder multiplicador da Petrobras costuma ser estimado (até mesmo pelos tradicionais adversários da estatal) em cerca de três vezes, ou seja, para cada real investido naquela que já foi a nossa maior empresa, três reais são gerados no conjunto da economia nacional. É muita coisa e essa situação vantajosa tem que ser recuperada o mais rapidamente possível. Mas, isso também, exige um diagnóstico honesto e preciso. A situação atual da companhia resulta da ação cominada de quatro causas principais: a) O enorme endividamento da Companhia, quase todo feito em moeda estrangeira, e que assumiu proporções gigantescas com a recente desvalorização cambial; b) A diminuição de receitas e do valor de ativos atrelados ou decorrentes do preço internacional do petróleo, que vem alcançando níveis baixíssimos (menos de U$ 30,00 por barril); c) A prevalência de práticas inconvenientes ou ineficientes de gestão nos últimos tempos (incluindo as acionadas internamente como a desvantajosa opção em alguns grandes investimentos, e as impostas pelo acionista controlador como a manutenção de preços artificialmente baixos para os seus produtos); e d) A prática generalizada de corrupção nas principais operações financeiras e negociais da Companhia, alcançando valores elevadíssimos.


Feito um diagnóstico dessa natureza, acompanhado da adoção firme de alguns procedimentos emblemáticos, incluindo aqueles que dispusessem sobre um modelo de gestão efetivamente participativo e da proteção da empresa contra a ingerência política, o governo brasileiro passaria a reunir condições para exigir o apoio da sociedade em outras opções importantes. Destaco pelo menos duas delas: a) A alienação de parte dos ativos e de alguns privilégios operacionais favorecidos pela legislação atual, de forma a otimizar o capital disponível; e b) A recapitalização da Companhia por parte do acionista controlador, já que, atualmente, não existem condições para buscar-se esses recursos no mercado, ainda que uma política desse tipo represente um sacrifício adicional para os sócios minoritários (pela diluição acionária das posições individuais).


Esse ponto parece constituir-se em um teste estratégico para a adoção de uma efetiva "Agenda Brasil", na acepção adotada neste blog, especialmente por conta dos efeitos que uma política desse tipo poderia trazer para toda a economia nacional. Nunca é demais lembrar, a título de ilustração, que o exame das possibilidades de participação em empreendimentos de qualquer natureza, por parte de investidores estrangeiros costuma ser, quase sempre, acompanhada por indagações relativas à situação atual da Petrobras. A Companhia é um balizador estratégico para toda a nossa economia e para a atração de capitais.

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7 comentários para "Agenda Brasil & Petrobras"

Rinaldo de Sena Bianco
Rinaldo de Sena Bianco disse: 25 janeiro 2016
Rubens
Acho que antes de vender ativos, poder-se-ia rever a questão da partilha versus concessão.
ricardo
ricardo disse: 29 janeiro 2016
Dr.Rubens, achei interessante todas as suas colocações. Agora a Petrobras maior parte da sua produção e interna e o combustível não baixou o preço então o preço do barril internacional teóricamente pouco influência na Petrobras o foco todal seria essa negociação da dividida em dolares.partindo dessa pensamento vamos vender ativos internacionais e alguns nacionais para pagar essa dívida. O que acha ?
ricardo aguiar
ricardo aguiar disse: 29 janeiro 2016
Dr.Rubens, achei interessante todas as suas colocações. Agora a Petrobras maior parte da sua produção e interna e o combustível não baixou o preço então o preço do barril internacional teóricamente pouco influência na Petrobras o foco todal seria essa negociação da dividida em dolares.partindo dessa pensamento vamos vender ativos internacionais e alguns nacionais para pagar essa dívida. O que acha ?
PAULO RIBEIRO
PAULO RIBEIRO disse: 04 fevereiro 2016
Sr.Rubens, concordo que muito deveria ser feito a nivel de uma agenda pautada no desenvolvimento do País, mas acredito que a maior agenda que teríamos que ter, seria a AGENDA DE DESINTROMISSÃO do poder publico na economia de modo geral, pois os grandes males que assolam nossas grandes Empresas, pois aonde eles dão as diretrizes, podemos ter certeza de que teremos um cabide de emprego para pessoas desqualificadas, intromissão no mercado daquela empresa para beneficiar algum apaniguado. Acredito que a melhor solução para nosso País, seria o governo poder indicar apenas os Ministros, e a hierarquia abaixo deles seriam apenas funcionarios de carreira, que demonstrassem aptidão para administrar estas Empresas. E finalmente o mais urgente, acabar com a prerrogativa do recebimento de receitas exclusivamente pelo poder central, criando-se um sistema de repartição automatico destes encargos, mas simultaneamente um controle nacional de TRIBUNAL DE CONTAS NACIONAL, sem as mutretas acostumados a vermos nos regionais. Nosso País tem possibilidades reais de ter um grande futuro. Infelizmente os detentores do poder ainda não foram alertados que o País é nosso,e não de sua propriedade e família. faz muita falta novamente um Castelo Branco
PAULO ROBERTO NOGUEIRA RIBEIRO
PAULO ROBERTO NOGUEIRA RIBEIRO disse: 04 fevereiro 2016
Sr.Rubens, concordo que muito deveria ser feito a nivel de uma agenda pautada no desenvolvimento do País, mas acredito que a maior agenda que teríamos que ter, seria a AGENDA DE DESINTROMISSÃO do poder publico na economia de modo geral, pois os grandes males que assolam nossas grandes Empresas, pois aonde eles dão as diretrizes, podemos ter certeza de que teremos um cabide de emprego para pessoas desqualificadas, intromissão no mercado daquela empresa para beneficiar algum apaniguado. Acredito que a melhor solução para nosso País, seria o governo poder indicar apenas os Ministros, e a hierarquia abaixo deles seriam apenas funcionarios de carreira, que demonstrassem aptidão para administrar estas Empresas. E finalmente o mais urgente, acabar com a prerrogativa do recebimento de receitas exclusivamente pelo poder central, criando-se um sistema de repartição automatico destes encargos, mas simultaneamente um controle nacional de TRIBUNAL DE CONTAS NACIONAL, sem as mutretas acostumados a vermos nos regionais. Nosso País tem possibilidades reais de ter um grande futuro. Infelizmente os detentores do poder ainda não foram alertados que o País é nosso,e não de sua propriedade e família. faz muita falta novamente um Castelo Branco
Renato Correia Lacerda
Renato Correia Lacerda disse: 04 fevereiro 2016
Quando pensamos que as intervenções estatais só atrapalham as empresas, as vezes não. O maior causador da crise da petrobras esta atrelado a ações de governos de paises externos, vamos voltar a 2013 quando foi descoberta a rede espionagem nas empresas do governo brasileiro atraves da rede internet Denuncia veio a publico pelo ex agente Eduard Snodem.
Com os dados de custos de extração do petroleo em aguas profundas a ficava fácil bolar extrategia para derrubar a Petrobras que alem disto em 2012 já anunciara a grande descoberta de vastos campos de petroleo que iria colocar o Brasil em destaque entre os maiores produtores de petroleo do mundo.

O plano que eu pode observar foi o seguinte os Estados Unidos passaria explorar suas reservas intocaveis e estrategicas de xisto extraindo petroleo deste mineral. Esta ação provoca queda do preço do petroleo que ainda cai mais com a reação dos paises Arabes que reduzem ainda mais seu preço.
Agora para resolver esta situação se o governo brasileiro quiser poderia agir de forma semelhante, aumentando os preço das comodidites ( soja, milho, trigo) e tambem Alimentos processados ou in natura.
Ninguem comeria petroleo e em espaço curto de tempo caberia um acordo internacional para regulamentar os preços de produtos
Os Demais problemas serios da Petrobras são domesticos e podem ser resolvidos.
Mas eu ainda penso cabe ao governo a responsabilidade de agir intervindo a favor de nosso patrimonio , conservando e crescendo sempre.
Urias Fonseca Rocha
Urias Fonseca Rocha disse: 27 fevereiro 2016
Parabéns ao Senhor Rubens Menin, lisonjo por ler suas sóbrias e sabias colocações em seu Blog, vejo como um signatário patriota e com olhos fixos no futuro do pais, empresários de seu naipe que dignifica e formata o futuro da pátria. Com relação a Petrobrás e a atual conjuntura econômica do pais, vejo muito mais como uma crise artificial formatada por políticos de direita versos esquerda, com uma suave alimentação da mídia, nossa crise politica é irrefutável, creio que somente após um nosso formato de gestão é que nosso pais se encaminhará, temos uma das maiores reservas de petróleo e minério do planeta, nosso nióbio fora estimado em 22 trilhões de dólares a preço de mercado, e somente o nosso pré-sal na partilha já estava estimado em 8 trilhões de dólares, por essa situação passa a ser preocupante e passiveis de megas discussões a nível nacional, não podemos simplesmente privatizar a ermo e de forma irresponsável. Mas, no contexto seu ponto de vista é muito respeitável.

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