A Culpa é das Elites ...

Publicado em 08 julho 2016

6 comentários

Ou, mais precisamente, da falta delas!


A acusação do título, no sentido em que foi repetida "ad nauseam" nos últimos anos, era injusta como costumam ser todos os preconceitos ideológicos. As nossas elites, culturais, artísticas, empresariais, políticas, intelectuais e financeiras, não foram as responsáveis diretas pela criação de todos os problemas que o país enfrenta neste momento de crise aguda. Pelo contrário, tenho manifestado em diversas ocasiões a minha opinião de que, em todas as nações, países e sociedades, as elites são, justamente, o diferencial capaz de induzir o desenvolvimento social e econômico e de que, desprezar a utilidade desse fator costuma ser um desperdício com terríveis consequências, como a História sempre registrou.


Por outro lado, vista sob ângulo diverso, a mesma expressão do título encerra uma verdade curiosamente interessante. No caso brasileiro, se as elites não podem ser responsabilizadas diretamente pelas nossas agruras em decorrência de atos inconvenientes, de escolhas inadequadas ou de ações equivocadas, elas têm enorme culpa em tudo isso, justamente por se terem tornado pequenas, mal compostas, pouco densas, inoperantes e desajustadas. Ou seja, a culpa neste caso é a da inexistência de elites emuladoras, representativas e ativas. Em outros termos, as elites foram culpadas não por seus atos, mas por suas omissões e ausências na dinâmica do país, em anos recentes. Elas simplesmente perderam densidade e, por consequência, capacidade operacional eficaz.


Não interessa ao propósito deste tópico aprofundar a análise do fenômeno, na tentativa de identificação dos complexos processos sociológicos, políticos e econômicos que nos deixaram com elites muito menos capacitadas, cooperativas, engajadas, lúcidas e operantes do que as que já tivemos em outras épocas. Mas, não quero perder a oportunidade de registrar alguns exemplos e seus efeitos comparativos. Só para aclarar as idéias.


Em outros momentos políticos especialmente graves e sensíveis, pudemos contar com a contribuição e com a participação ativa de lideranças exponenciais, capazes de aglutinar a nação e dar-lhe objetivos lúcidos e concretos. Gente da magnitude política de Ulysses Guimarães, de Mário Covas ou de Tancredo Neves. E hoje, como estamos providos de elite política? Na época das "Diretas Já", contamos com uma participação engajadíssima da nossa elite artística; todos com uma mensagem concreta e objetiva. Hoje, os poucos artistas nacionais que se apresentam como engajados nas grandes causas do país aparecem meio perdidos, com atitudes confusas ou contraditórias e, por isso, deixam de empolgar a sociedade. Perdemos densidade nesse particular. O panorama não é muito diferente no que concerne às nossas elites intelectuais. Quem vem pontuando na academia, nas fundações ou nos centros de saber? Os poucos que ocupam certo espaço midiático digladiam-se em torno de duvidosas, repetitivas e anacrônicas premissas ideológicas, sem agregar qualquer contribuição concreta para iluminar os caminhos desta sofrida nação. Não foi assim no passado. Para evitar tendenciosidade, lembro que os extremos do espectro político já foram guarnecidos com o brilho intelectual de Roberto Campos e de Darcy Ribeiro. Onde estão os sucessores de Jorge Amado e de Oscar Niemayer? O que dizer, então, da nossa elite esportiva? Quem são os sucessores de Pelé, de João do Pulo, de Adhemar Ferreira da Silva, de Ayrton Senna e de tantos outros atletas que ostentaram postura de exemplo para os jovens e para os aficionados do esporte? Que cientista podemos indicar como candidato ao nosso primeiro e atrasadíssimo Prêmio Nobel? Quem deve receber a tocha que já foi empunhada, merecidamente, pelas candidaturas de Cesar Lattes e Carlos Chagas? Deixei para o final um comentário sobre a nossa elite empresarial. Nesse campo, nem parece que este país já assistiu o esforço empenhado de homens como Irineu Evangelista de Sousa ou Percival Farquhar. O que temos hoje é um empresariado que vem se tornando, em sua maioria, dependente do Estado (de seus favores, de suas encomendas e de seus regramentos) e, por consequência, incapaz de opor-se aos governos e às suas opções equivocadas. O processo, qualquer que seja ele, já demasiadamente demorado, nivelou por baixo e roubou densidade. Sim, a culpa é das elites ou, mais precisamente, da falta delas!

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6 comentários para "A Culpa é das Elites ..."

Andres Mendez
Andres Mendez disse: 08 julho 2016
Um pais rico necessita elites para manter a sociedade, desenvolver projetos sociais e gerar bem estar para gente menos favorecida
Empresas ricas criam condições de crescimento para pessoas, comunidades ricas fazem o crescimento da população e nos pensamos ainda conforme alguns que cuidar da terra, plantar, colher, criar gado faz parte de uma elite privilegiada e o certo é pedir ao governo terra de graça para não plantar nada
Elites são culpadas apenas em não fazer parte do atraso, temos que lutar para criar um sentimento de progresso verdadeiro na nossa sociedade e que o mundo nos veja como uma elite de empreendedores, industriais, universitarios, Ate no futebol deixamos de pertencer a elite ou seja ficamos no nivel abaixo da critica e da produção eficiente. Me lembro da elite do meu time com Rivelino, Carlos Alberto, Felix, Gerson, Marco Aurelio, Abel, etc. e agora o que temos é um time para a segunda divisão porque nos falta este tipo de ELITe
Charles Alvim
Charles Alvim disse: 09 julho 2016
Na minha opinião essa falta de elite ocorreu devido ao fato da sociedade brasileira ter sido tomada pelo individualismo. Ninguém se vê em sociedade, acha que o mundo gira em torno e para si.
Como explicar o fato de um país com mais de 200 milhões sem lideres emergentes? É omissão!
Rodrigo Cabral
Rodrigo Cabral disse: 11 julho 2016
Bacana demais seus artigos, mesclam informação atualizada e cultura.
Sobre o texto em si, me lembrou outro que li, onde o autor comentava que bastava ver o tanto de "concurseiros" atuais para se ter uma ideia de como anda pensando nossa elite...
Andres Mendez
Andres Mendez disse: 11 julho 2016
Grande falha da patria educadora é a formação de cidadãos conscientes e que prefiram a prosperidade de todos iniciando pela sua familia e pelo seu trabalho
Elite é a desculpa de quem não quer ouvir, O Rubens é um exemplo que devemos seguir porque ele sozinho cria mais empregos que o governo todo
Este tipo de ELITE nos ajuda
Almir Wagner
Almir Wagner disse: 25 julho 2016
Com todo o respeito, texto infeliz. Vivemos tempos muito mais complexos do que outrora. As elites perderam força devido à mudança de valores da sociedade. Ter bens, hoje, por si só, não define a elite. Ela precisa de outros fatores para adquirir o respeito da sociedade. E o povo de hoje, por mais pobre que seja, não é mais aquele coitadinho que a tudo se submete. Ele também quer participar. E o que dizer da internet, que democratiza a informação. Hoje tá mais difícil enganar.
E por fim, citar Percival Farquhar como exemplo de empreendedor é no mínimo falta de conhecimento do processo de colonização do Brasil. Empreendedor sim, mas desprovido de bom senso e respeito ao ser humano. Boa parte das milhares de mortes ocorridas na guerra do Contestado devem ser a ele creditadas pela forma como se conduziu na construção da ferrovia SP - RS. A forma como definiu o traçado da estrada, a forma como utilizava mão de obra barata tendo trazido es-escravos do Rio de Janeiro com promessa de recondução, depois largando-os à beira da ferrovia e vendendo as terras aonde se alojavam, mostra simplesmente um homem sem escrúpulos, que aceitou o jogo sujo dos políticos da época. Sinceramente Sr. Melin. Não estrague a boa impressão que temos a seu respeito.
Andres Mendez
Andres Mendez disse: 26 julho 2016
A cultura do estado patrimonialista, o estado que pode tudo é o maior erro da nossa cultura
Criticam as elites como algo negativo, elites são empresas ricas que pagam impostos e mantém o estado funcionando
Na minha época eu devia trabalhar para financiar meus estudos, agora temos Pronatec, Fies, Bolsa familia, etc. etc.
O restante da sociedade que não utiliza a ajuda do estado são consideradas elite, justamente quem financia tudo A sociedade deve constituir uma elite, produtiva responsável, ética , digna, então o pais vai avançar e seremos um pais produtivo, composto de elite que busca o bem do cidadão como grupo social e não um pais que vive do assistencialismo do estado, mantendo a produtividade no fundo do poço

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